11 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “Housewife” de Can Evrenol


Sinopse

A infância de Holly é marcada por um acontecimento brutal e trágico. A sua mão possuída por loucura sobrenatural assassina a irmã mais velha e o pai à sua frente. Anos mais tarde, Holly torna-se uma mulher casada e com uma vida normal, apesar de perseguida por pesadelos da sua experiência traumática. Um casal amigo desafia-a e ao seu marido a irem a um evento organizado por um psíquico das celebridades. Este encontro irá obrigá-la a confrontar-se com o seu passado.

Opinião por Artur Neves

A anterior sinopse poderá indiciar que este será um filme sobre uma perturbação mental contraída na infância decorrente de um evento familiar trágico, com sequelas no presente de que o filme irá desenvolver. Infelizmente não é assim porque o tal psíquico das celebridades mais não é do que o representante na terra de uma entidade divinal profana que constituiu uma seita de seguidores que preparam o nascimento do futuro enviado que os irá conduzir à “terra prometida”, ou onde quer que seja que eles pretendem chegar.
O que sempre me pergunto quando me confronto com histórias de cultos demoníacos ou semelhantes, é se estas entidades “poderosas”, recheadas de poder imenso, superior e discricionário que se querem instalar na terra para a subjugar e transformar, necessitam tão-somente de um útero terreno para parir o seu enviado que há-de guiar os súbditos e seguidores para o tal “jardim do éden”.
Possuem poder a jorros para fazer o que quiserem, exceto assegurar a continuidade da sua espécie?… Não dou nem mais um cêntimo para este peditório, porque a retórica é sempre a mesma; sessões de culto á putativa divindade, cenários escuros iluminados a velas, cenas de sexo para apimentar as hostes, sangue que baste, ritos, rezas e choros e na volta lá aparece o monstrinho envolto em gelatina e com cara de poucos amigos logo à nascença, que é oferecido ao pai cujos tentáculos descem do céu para o agarrar...
Mas que grande pessegada!… a classificação atribuída pretende destacar a equipa dos efeitos especiais de caracterização e de computador que cumpriu com o que lhe foi pedido.

Classificação: 4 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “Animals” de Greg Zglinski


Sinopse

O atropelamento de uma ovelha numa estrada rural é o catalisador duma serie de eventos estranhos e inquietantes para o casal Nick, cozinheiro e Anna, escritora de livros infantis. A experiência deixa-os incapazes de saber onde estão; no mundo real, na sua própria imaginação, ou na imaginação de alguém.

Opinião por Artur Neves

O acidente ocorrido na estrada, quando em viagem para o seu retiro na montanha, revela-se muito grave para ambos os membros do casal, considerando que ela fica em coma no hospital e ele fortemente perturbado por ter sido o causador do desastre por motivo de mera e imprudente distração enquanto conduzia.
A consciência com que cada um fica do acidente é diversa e multifacetada, sendo que nela, apesar de estar em coma, permite-lhe experienciar todas as vicissitudes que ambos, enquanto casal, viveram e estão a viver, suas dúvidas, seus desamores, suas contrariedades recíprocas, acentuando-se nas divergências e nas suspeitas que provocam uma transmutação do tempo, não sendo nunca claro onde realmente estão, nem o que se propõem fazer.
Nele, consumido pelo remorso, confunde-se nos seus próprios planos à procura de um apaziguamento utópico que não chega, considerando que o estado dela é verdadeiramente grave e vem a revelar-se irrevogável. Neste turbilhão de pensamentos, nada do que nos é mostrado corresponde à realidade presente mas antes a um imaginário de construção diferenciada de que somos convidados a partilhar mas que não temos qualquer intervenção.
A história baseia-se numa obra escrita por Jorg Kalt que foi recuperada pelo realizador, após o suicídio de Jorg em 2007. Greg Zglinski, reescreveu o tema, expandi-o para configurar o atual argumento que apresenta traços característicos do cinema de Lynch e Polansky e constitui uma parábola sobre o poder da nossa mente quando os eventos a que somos sujeitos nos são adversos.
No limiar dessa realidade construída pelo sofrimento, quer físico, como psicológico a nossa mente constrói múltiplos cenários e coloca-nos a interagir com elementos externos, também eles fruto da fantasia, mas que menor dano nos cause, embora com reduzido sucesso. Não é um filme fácil, mas está bem articulado, bem desempenhado e constitui um tempo de procura de uma verdade que apesar de não ser nossa, nos interessa e empolga.


Classificação: 6 numa escala de 10

10 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “M.F.A.” de Natália Leite


Sinopse

Noelle, uma estudante de arte à procura da sua vez, é violada por um colega de turma. Na tentativa de lidar com este trauma, confronta impulsivamente o seu atacante numa altercação violenta que acaba por provocar a morte acidental deste. Noelle tenta regressar à normalidade, mas quando descobre que é apenas uma entre muitas sobreviventes de ataques sexuais no campus, decide fazer justiça pelas próprias mãos.

Opinião por Artur Neves

Natália Leite é natural de S. Paulo, Brasil, mas vive e trabalha nos USA, apresenta-nos aqui o seu primeiro thriller, sendo a sua carreira preenchida até aqui com filmes mais pacatos de género romântico e comédia. Neste filme conta com Francesca Eastwood (filha de peixe sabe nadar) no papel de “Noelle”, uma justiceira por conta própria na sequência de um ataque sexual em que foi violada no campus universitário onde estuda.
O filme aborda o problema da violação sofrida em segredo, em que a violada prefere o silêncio e o esquecimento do nefasto evento, em vez da denúncia e da acusação do perpetrador, com receio da exclusão social que isso acarreta como resultado da investigação necessária para a constituição de prova, em muitas vezes difícil de obter não só pelas dificuldades forenses inerentes, como também pela suspeita do comportamento da violada e do maior ou menor prazer que retirou do ato que agora vem denunciar o que lhe retira credibilidade social sendo duplamente punida por um ato que não contribuiu de livre e espontânea vontade.
A história contém muito de experiencia própria da realizadora enquanto estudante e está contada de modo linear, previsível e escorreito assumindo-se como um libelo contra os comportamentos de fuga incentivando-os a revelarem-se, e contra as associações mais ou menos piedosas de mulheres violadas, cuja ação dentro da ordem social vigente, conduz mais á continuação do status quo do que á sua denúncia e revogação.
Por outro lado advoga e exibe a vingança por conta-própria, à margem da lei, o que também não se apresenta como deontologicamente recomendável, muito embora no final a justiça seja reposta, mas socialmente tudo continue na mesma conferindo oportunidade a que o problema retratado neste filme se repita.
Noelle (Francesca Eastwood) está bem no papel, considerando que todo o filme gira em torno dela. Esta mesma história com uma montagem mais arrojada, não tão cronologicamente seguida, poderia conter outros elementos de interesse e expetativa para o espetador. Penso que seja uma realizadora com potencial de quem poderemos esperar boas obras no futuro.

Classificação: 6 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “68 Kill” de Trent Haaga


Sinopse

Trabalhar com fossas sépticas não é a ideia de uma vida perfeita para Chip. Mas ele é um tipo simples, com uma grande namorada chamada Liza. É verdade que ela garante um rendimento extra com uma “benfeitor”, mas todas as relações têm as suas complexidades. Quando Liza sugere que “aliviem” o benfeitor de uma considerável quantia de dinheiro, Chip, vê pela primeira vez, um lado de Liza que não conhecia… ou que nunca quis admitir. Agora tem uma arma na mão, uma rapariga no porta-bagagens e menos de 24 horas para resolver a situação.

Opinião por Artur Neves

A história apresenta-se maioritariamente como comédia pelo que a primeira dúvida que nos assalta é com que critério terá sido incluída neste festival. No decorrer do filme porém, quando começam a aparecer as mortes violentas parece ter-se encontrado a resposta, todavia o ambiente criado e os personagens apresentados são tão politicamente incorretos que dificilmente a história nos convence como thriller, contendo até cenas e diálogos que nos provocam saudáveis gargalhadas.
A história contada é linear, escrita e realizada por “Trent Haaga” que tem no seu curriculum outras comédias e muitos filmes como ator. Desta feita apresenta-nos uma comédia negra, mais comédia do que negra, de um homem que se deixa levar pelo “canto de uma sereia” para uma aventura que previsivelmente resolveria os seus problemas financeiros, mas que vem a revelar-se desastrosa, muito embora tenha-lhe servido como lição de vida.
O argumento não tem surpresas, nada sai fora do esperado, muito embora não seja previsível o que vai acontecer a seguir, mais pela esdruxula história que nos é contada do que pelo hiperbolismo do argumento. O desempenho dos atores está de acordo com os padrões da comédia, bem vincados, com personalidades fortes, simples e diretas, cumprindo o que é esperado pela simples observação da sua caracterização.
Chip (Matthew Gray Grubler) o “detetive pensante” da série “Mentes Criminosas”, desempenha aqui o principal papel desta história que nos conduz pelo labirinto do pensamento de um homem que não pensa com a cabeça mais adequada, muito embora obtenha com isso as suas compensações.
Os diálogos são adequados e têm graça em muitos dos seus silogismos, dispondo-nos bem e amortecendo os litros de “sangue” que foram gastos na realização, abordando ainda que de passagem, alguma crítica social que só o valoriza.

Classificação: 5 numa escala de 10

9 de setembro de 2017

Opinião – “Caça ao Homem” de Steven C. Miller


Sinopse

Will Beamon (Hayden Chistensen), um homem de negócios bem-sucedido, descobre que Danny (Ty Shelton), o seu tranquilo filho está a ser vítima de bullying na escola e decide levá-lo para uma viagem de caça que visa estreitar os laços entre pai e filho, tal como o seu pai havia feito quando ele era jovem. Durante a sua estadia nos bosques, pai e filho deparam-se com um jovem criminoso ferido, Levy Barrett (Gethin Anthony), e atesar dos esforços de Will para o proteger, Danny é raptado…
A relação entre pai e filho, bem como a relação entre o filho e o seu raptor, são testadas ao limite forçando todos os envolvidos a adaptarem-se a circunstâncias extremas para sobreviverem.

Opinião por Artur Neves

O que este filme nos apresenta e uma tentativa de inovação para a história tradicional do thriller bucólico, misturando uma trama rebuscada, algo forçada, que leva a surpreender o espectador logo nas primeiras imagens, que não têm continuação no resto filme, nem no tempo, nem em “off”, somente recuperadas através de uma breve menção de um dos personagens, que sugere tenham sido introduzida somente para as justificar pois eram perfeitamente dispensáveis em toda a história.
As personagens criadas não são convincentes, muito embora a história pretenda mostrar um enredo complexo, criado acidentalmente pelo testemunho improvável de alguém que não era suposto estar aquela hora, naquele local.
Ao longo do visionamento apercebemo-nos que são todos bandidos, não tanto como se revelarão no final, mas as atitudes que nos levam a essa conclusão têm falta de credibilidade, tanto por parte dos polícias gatunos, dos ladrões, do pai da criança que vem para o mato ensiná-lo e ser homem e dar-lhe o tempo de companhia e de atenção que a cidade e as suas ocupações profissionais não permitem.
A mãe do garoto desempenha um papel sem densidade nem dramatismo, ora zangada com o marido pela sua ausência, ora sorridente e muito feliz sem motivo aparente, ora amarrada pelos polícias e desesperada aos gritos sem conseguir com isso qualquer mais-valia. É tudo muito pobre e com pouco nexo, num filme em que a rodagem num bosque deve ter resultado da tentativa de redução de custos de produção.
Em toda esta aventura, salva-se o desempenho de Howell (Bruce Wills), que decorrente da sua idade representa o chefe da esquadra local, também com muitas culpas no cartório em toda aquela situação e noutras do passado, que se vêm a revelar no fim, mas numa altura em que já estamos desiludidos com aquela trama, já compreendemos a justificação de certas atitudes, montadas para prolongar o filme dentro do tempo contratado e já só pretendemos ver o desfecho que se adivinha.

Classificação: 4 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “Lake Bodom” de Taneli Mustonen


Sinopse

Em 1960, o pior pesadelo de qualquer campista tornou-se realidade quando quatro adolescentes foram esfaqueados enquanto dormiam nas suas tendas. Com o tempo, o crime tornou-se uma lenda urbana, uma simples história mórbida contada à volta da fogueira. Agora um grupo de adolescentes instala-se no mesmo acampamento na esperança de resolver o mistério, reconstruindo o crime detalhadamente.

Opinião por Artur Neves

A história contada neste filme não é o que parece demonstrado pelos principais intervenientes, já que, cedo ficamos a saber que dos quatro amigos nem todos têm os mesmos motivos para participarem naquele fim-de-semana declaradamente como meio de investigação do mito urbano associado ao lago que dá o nome ao filme.
O suspense experienciado por esta história advém da expectativa criada para o desenvolvimento de uma aventura cujos fins, embora referidos pelos seus promotores, apresenta algo de suspeito, naïff, e de sucesso duvidoso, que se vem a revelar no imprevisto twist operado na história, conferindo a este slasher movie a desconstrução dos objetivos iniciais e revelando as verdadeiras intenções da história.
Taneli Mustonen está fora do seu registo habitual, que tem sido filmes de humor mais ou menos despretensiosos, enveredando aqui pelo mito urbano como fonte de terror, que para não variar no conjunto global, é objeto de um twist final totalmente inesperado.
Maioritariamente rodado na noite de chegada ao acampamento, o filme serve-se das sombras e do que os olhos não podem ver, para criar o ambiente adequado à ação conseguindo-se aí a maior parte do suspense que a história consegue imprimir. Depois temos a parte “gore” com as mortes violentas, também elas inesperadas mas bem encenadas para inicialmente nos confundir e finalmente a fuga também durante a noite, onde pontuam os efeitos especiais geradores da emoção.
No seu todo e apesar dos twists da história, o filme apresenta-se escorreito, coerente nos seus objetivos e tem momentos de puro cinema que nos emociona e diverte no âmbito do género. O realizador “defende-se” com os ambientes escuros e as sombras para conseguir uma realidade induzida em vez de uma realidade expressa, mas isso não é estranho nestas histórias e é por si só um motivo de apreço se for em demasia.

Classificação: 5 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “Rift” de Erlingur Ottar Thoroddsen


Sinopse

Meses depois de terem acabado, Gunnar recebe uma chamada estranha do ex-namorado Einar. Soa perturbado, como se estivesse prestes a fazer algo horrível a ele próprio. Gunnar mete-se no carro e vai ao encontro da casa isolada onde Einar se refugiou. Ao reencontrá-lo, depressa se apercebe de algo mais sério se passa. Enquanto os dois homens tentam remediara a relação, um estranho parece estar a rondar a casa, com intenção de entrar.

Opinião por Artur Neves

Filmes de terror LGBT não são muito comuns na arte cinematográfica e muito menos oriundos das longínquas terras frias da Islândia. O realizador Erligur Ottar Thoroddsen apresenta-nos esta história onde consegue sintetizar vários elementos de diferentes géneros, tais como, o thriller psicológico, o amor desavindo entre dois homens, e o suspense que emerge da suspeita do desaparecimento e do crime.
Toda a história tem como pano de fundo as paisagens geladas, mas nem por isso menos belas apesar de sombrias, da ilha, conferindo ao ambiente da história o silêncio e a escuridão semelhantes, à alma dos dois homens em conflito entre si, mas em conflito maior consigo próprios e com a sua intimidade violada pela inclusão de um terceiro elemento de ambas as partes.
Todo o ambiente que perpassa pelo filme é de suspeita, dúvida e medo indefinido pela verdadeira relação que se estabeleceu entre ambos após uma separação por mútuo acordo, quebrada por um telefonema indefinido que contém incerteza e receio de um mal maior.
Muito embora não conheçamos em profundidade a dimensão dos reais sentimentos duma relação deste tipo, o realizador consegue criar no filme a sensação de incerteza e o medo que se instalam entre duas pessoas com destinos comuns inicialmente, mas que optaram por seguir caminhos diferentes, e em que essa opção apresenta diferentes respostas de comportamento que podem levar à loucura, ao abandono de si e ao suicídio.
O lugar é por si mesmo frio e escuro devido à sua localização geográfica e isso acentua a tristeza e a frugalidade das relações que o filme consegue transmitir nos diálogos curtos, nos sons injustificados que criam o suspense, nas buscas infrutíferas por alguém que não era suposto aparecer nos locais onde aparece, transfigurado no amigo invisível da infância passada. Filme curioso com vários elementos de interesse ilustrando a clivagem profunda, (“Rift”), que se estabeleceu entre os dois homens.

Classificação: 5 numa escala de 10

8 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “The Bad Batch” de Ana Lily Amirpour


Sinopse

A jovem Arlen é abandonada numa zona árida do Texas separada da civilização por uma barreira. Enquanto se tenta orientar por entre a paisagem implacável, é capturada por um grupo de canibais selvagens liderados pelo misterioso Miami Man. Com a vida em risco, ela decide fugir ao encontro de um homem a quem chamam “O Sonho”. Enquanto se adapta à vida no seio da Má Fornada, Arlen descobre que ser-se bom ou mau depende essencialmente de quem se encontra ao nosso lado.

Opinião por Artur Neves

Num mundo distópico, provavelmente saído de um conflito nuclear ou de alguma maneira destruidor dos nossos valores atuais conhecidos, uma jovem prefere dirigir-se deliberadamente para o deserto do que para a cidade smi-desfeita que se subentende. Este filme partilha com “Mad Max”, (todos os filmes anteriores, bem como o mais recente de 2015) a demência coletiva de uma sociedade completamente desprovida dos seus valores, sem rumo, sem aproveitamento do seu tempo de existência, sem objetivos e unicamente focada na sua sobrevivência pária e selvagem.
Da cidade remanescente nada sabemos, apenas que a opção pelo deserto inóspito e povoado de diversos perigos é mais apelativa do que os outros destinos, conduzindo-nos através da personagem principal por um walk movie que se cruza com diversos walkers como ela, em busca de referências que já não existem.
Tudo é útil naquele deserto e naquela desolação de vida, pelo que o primeiro encontro com um grupo organizado não corre da melhor maneira, motivando que seja obrigada a lutar para se libertar e assim poder recomeçar a sua odisseia pop pós-apocalíptica, em busca do “Conforto” e do “Sonho” que também caba por concluir não ser opção aceitável, apesar das mordomias que lhe são oferecidas.
Ana Lily Amirpour, mostra-nos assim que os afetos e as preferências pessoais podem surgir, tanto do enlevo da paixão, como da solidão e do abandono e até do sofrimento infligido pelos preferidos de agora. A noção de família também é fundamental em todo o filme e por si só justifica o abandono do conforto imediato por troca com um bem maior que se espera alcançar.
Filme calmo, paisagens áridas, diálogos simples numa civilização que abruptamente deixou de o ser e agora procura o caminho de retorno que não se encontra facilmente.

Classificação: 5 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “Prey” de Dick Maas”


Sinopse

Após a descoberta do homicídio macabro de uma família de camponeses nos arredores de Amesterdão, a polícia não faz ideia de quem poderá ser o possível perpetrador. Contudo, Lizzy, uma veterinária do jardim zoológico, crê saber quem poderá ter causado as mutilações sangrentas: um leão forte, grande e feroz. Ninguém acredita muito nesta hipótese, e é necessário uma segunda matança para que, finalmente as autoridades aceitem o plano rigoroso de um caçador de leões britânico para apanhar o monstro.

Opinião por Artur Neves

A história reúne alguns elementos curiosos, explorados pelo realizador que dispôs de alguma profusão de meios artísticos e de caracterização para provocar uma tentativa de tensão e medo, mas que nunca ocorreram, porque as cenas mais chocantes foram sempre envolvidas numa atmosfera de chalaça, de humor negro de riso fácil, de crítica social de diversas entidades, de forma expressamente chocarreira e ridícula.
Dick Maas não é propriamente um estreante nestas andanças tal como atestam as suas anteriores realizações no género; “Amsterdamned” 1988, não estreado entre nós, e “The Lift” (O Elevador, 1983) que atingiu significativo sucesso em Portugal, embora constituindo um subgénero de terror ligeiro. Desta vez, criando um ambiente muito semelhante ao “Tubarão”, 1975 de Steven Spielberg, Dick Maas desenvolve uma história, cujo terror se dilui num humor negro cáustico, mas que em nenhum momento consegue perturbar o espetador numa cena de tensão produzida pela história.
A história é coerente, representaria um perigo real e pânico generalizado se ocorresse numa cidade mas a sua ilustração no filme é recheada de gags previsíveis, embora sempre funcionais, de caricaturas pessoais que poderíamos associar a conhecidos nossos e de eventos que pretendem causar medo através de caracterização, mas que naquele contexto não têm “força” para se afirmar como tal deixando toda a ação em “banho-maria” que não levanta fervura até ao final.
A parte lúdica é constituída pelo romance entre o atrevido jornalista e a veterinária, mas mesmo aí todos os tiques apresentados são de “antologia” não contendo amor escaldante nem zangas prolongadas, passando-se tudo numa normalidade clássica que parece ter sido construído só para cumprir o argumento. No final dá-se a sacramental cena de heroísmo em que a “rapariga” salva in extremis o “rapaz” como é hábito atualmente numa clara elevação do papel até agora desempenhado pela mulher, mas nem isso constitui surpresa.
Estamos pois em presença de uma história comum, divertida que baste, bem desempenhada, adulta, que ocupará uma parte do tempo que temos disponível. Quando saímos ela desvanece-se.

Classificação: 5 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “The Untamed” de Amat Escalante


Sinopse

Uma jovem dona de casa vive com dois filhos e o marido numa pequena cidade mexicana onde também vice o seu irmão. As vidas provinciais deles são perturbadas pela chegada de uma misteriosa mulher que lhes fala da existência de uma cabana isolada nos bosques, onde se encontra algo misterioso com propriedades milagrosas. Algo a que não se consegue resistir e com o qual se deve estabelecer a paz para evitar ser-se vítima da sua ira.

Opinião por Artur Neves

Não basta a exibição de cenas que nos remetem para temas fraturantes, tais como; sexo explícito hétero e homossexual, maus tratos domésticos, pobreza de meios, crianças ao abandono e… a cereja em cima do bolo; fantasias languidas com entidades extraterrestres multípedes que habitam uma casa na floresta e em que o seu contacto transmite paz e felicidade e nos liberta de todas as tensões espirituais, que corporiza por si só um filme, de terror??? ou de outro género qualquer.
Para que surja uma história com sentido é fundamental a existência de coerência e de ligação definida entre todos os elementos mostrados, com a particularidade de deverem ser os atos a antecipar-se às ações e às decisões e não o contrário (exceto no caso de recurso a flashback o que não acontece) como neste filme de Amat Escaldante, realizador mexicano vencedor do Leão de Prata no último Festival de Veneza, mas que não pode ter sido com este filme.
Muitas cenas não apresentam sequência coerente, alguns atos são mostrados desinseridos do contexto e sem motivo que previamente os justifique, são simplesmente colados em sequência na história, outros por seu lado, são pura e simplesmente revelados sem que nada indicie a sua ocorrência ou que, aquela revelação seja importante. Para mim significou um projeto falhado, onde apenas ressalta o grotesco de algumas cenas, mas que não eram precisos 100 minutos para dizer só isto.

Classificação: 0 numa escala de 10

7 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “Kaleidoscope” de Rupert Jones


Sinopse

Um ano após ter saído da prisão, Carl Woods (Toby Jones) de meia-idade, conseguiu adaptar-se ao mundo exterior. Encontrou emprego e um apartamento e aventura-se agora na sua primeira saída noturna com uma mulher em mais de 50 anos. Este evento coincide com o reaparecimento da sua mãe ausente e com as tentativas dela no sentido de apaziguar as diferenças que tão violentamente os afastaram. Enquanto Carl tenta suportar as influências nefastas do seu passado, sente-se cada vez mais atraído pelos pensamentos negros do seu vórtice psicológico.

Opinião por Artur Neves

Em primeiro lugar esclareço que um caleidoscópio é um instrumento ótico que opera segundo o princípio da reflexão múltipla, em que, duas ou mais superfícies refletoras inclinadas formando ângulos agudos entre si e fechadas no interior de um tubo, em que numa extremidade existe um dispositivo rotativo que suporta vidros coloridos transparentes. Na extremidade oposta é possível olhar para o seu interior e observar-se a geração de imagens múltiplas com um padrão regular mas em constante mudança.
Tal como os padrões mutáveis do caleidoscópio, assim observamos o comportamento de um homem perturbado por uma educação deformada de uma mãe austera e de um pai fraco que tal como ele, foi toda a vida dominado pelo seu despotismo da sua vontade determinística.
Rupert Jones, irmão do ator principal deste filme, Toby Jones, tem experiencia em série televisivas e curtas-metragens tendo-se agora lançado em obras mais arrojadas das quais este filme é um bom exemplo da sua capacidade de realização. Com significativas influências do mestre Hitchcock, mas também de Roman Polansky em “O Inquilino” de 1976, Rupert Jones constrói aqui uma personagem perturbada pelas suas obsessões, falhanços de vida, embora reconhecidos e já expiados e o fracasso como pessoa, em especial no que toca aos relacionamentos com as mulheres como uma projeção do profundo ódio que nutre pela mãe.
O personagem construído por Toby Jones e da sua personalidade paranoica, embora obstinada, em torno da qual todo o filme se desenvolve é consistente e credível, nos pormenores das suas manias, nos seus sonhos sempre perturbados, nas suas ações erráticas e precipitadas, na relação com a mãe sempre conflituosa, na relação com uma companhia de ocasião que traz para casa sem todavia conseguir consumar os seu desígnios por desconfiança e por projeção do ódio pela mãe que lhe condicionou toda a vida num caleidoscópio de emoções constantemente mutáveis e diferentes tal como as cores e os padrões observados através do caleidoscópio que o pai lhe oferecera em criança.
Sem se poder considerar um filme de terror típico, “Kalaidoscope” consegue criar uma atmosfera de tensão crescente que nos agarra á ação e às vicissitudes daquele ser que sentimos consumir-se no fogo agitado da sua personalidade perturbada. Recomendo

Classificação: 8 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “The Bar” de Alex de la Iglesia


Sinopse

Nove horas da manhã, algumas pessoas tomam o pequeno-almoço num café no centro de Madrid. Uma delas, um homem, está com pressa. Ao sair para a rua, um tiro atinge-o inesperadamente. Ninguém se atreve a ajudá-lo. Presos dentro do café, todos se apercebem rapidamente de que nem deles próprios estão a salvo…

Opinião por Artur Neves

Este filme reúne um conjunto harmonioso de comédia negra, crítica social e thriller psicológico numa história que se desenvolve entre desconhecidos, mas que ao serem forçados a coabitar um mesmo espaço contra sua vontade, lhes faz perder as regras da convivência cerimoniosa que se pratica entre estranhos conduzindo-os numa espiral de desespero à mais completa desumanidade ente seres da mesma espécie.
Os factos que presenciaram causam-lhes estupefação, medo e insegurança. Nenhum dos presentes consegue interpretar com realismo e verdade a razão do que aconteceu, e de todas as hipóteses colocadas aleatoriamente geram-se modelos de comportamento que são imputáveis à vez, a uns, e aos outros quando as evidências ilibam os primeiros, ou quando a falência dos argumentos faz perder o fio da conversa em curso e partem para outras lucubrações tão impróprias como as primeiras.
Todos os diálogos estão impregnados do egoísmo que pauta as relações humanas numa demonstração crítica das convenções sociais, somente válidas quando beneficiam os “meus” interesses, desmitificando a naturalidade do respeito mútuo, da entreajuda generosa, e até do amor que parece florescer, embora timidamente, entre dois elementos deste microcosmos social, confinado á exiguidade do espaço do bar, que todavia se vem a revelar mais extenso do que inicialmente aparentava.
Alex de la Iglesia já possui créditos firmados no género no qual “O Dia da Besta” de 1995 constitui uma referência do autor e do seu argumentista de eleição; Jorge Guerricaechevarria, companheiro de vários projetos com igual sucesso.
“El Bar”, na versão Hispânica, constitui assim um documento valioso que ilustra a condição humana conflituosa e desconfiada quando os elementos se conjugam para alterar o que acreditamos, ou que pensamos que acreditamos, numa toada de diálogos cínicos embora reveladores das verdadeiras emoções que os inspiram, conduzindo-nos numa espiral de degradação que provocará ao espetador um sorriso amarelado, tão amarelado quanto reconheça na sua vida corrente uma aproximação, ainda que remota e diferenciada, às motivações dos personagens. Bom espetáculo, recomendo somente nessa condição…

Classificação: 7 numa escala de 10

6 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “Super Dark Times” de Kevin Philips


Sinopse

Início da década de 90, num subúrbio dos USA, Zach e Josh, estudantes de liceu são os melhores amigos há muito tempo. Os dois partilham vários interesses incluindo a atração pela mesma colega Allison. No decorrer do que parecia ser um dia normal com os amigos, um trágico e sangrento acidente irá criar uma clivagem entre os anteriormente inseparáveis adolescentes.

Opinião por Artur Neves

Esta á a primeira longa-metragem deste realizador americano, autor de diversas curtas-metragens premiadas em diversos festivais na Europa e que com esta história entra no grande cinema dramático com uma realização auspiciosa para futuros empreendimentos que será justo esperar.
Aos amigos mencionados na sinopse, juntam-se mais dois, sendo sobre um deles que cai a tragédia perpetrada por Josh, num acidente dramaticamente infeliz, e que vai marcar para a vida todos os intervenientes, agora inevitavelmente cúmplices, bem como todos os que os cercam e que com eles partilham a vida quotidiana.
Uma determinada ação não afeta igualmente todos os que nela intervêm, mas sim de acordo com as suas sensibilidades, medos, e características pessoais. É pois da análise dessas diferenças que trata esta história, passada em ambiente urbano do interior dos USA, onde as convenções sociais, aliadas às vicissitudes de crescimento e aos seus naturais excessos de contestação e de sede de novas experiencias inerentes ao crescimento e à formação da personalidade, geram conflitos e desequilíbrios internos difíceis de gerir.
Para uns basta a assunção da culpa, para outros a pura negação do ocorrido e para outros mais sensíveis e responsáveis não podem viver com o remorso e tentam pelo menos, compreender as razões da culpa e as suas consequências, pelo que precisam comunicar.
O filme é totalmente realizado por atores estreantes, jovens, mas profundamente empenhados nos seus personagens transmitindo-lhes a densidade das suas preocupações, ou da sua ausência o que cria uma atmosfera, de relações controversas, dúbias, vistas com preocupação pelos adultos que os cercam, mas muito mais dolorosas para eles próprios e para as relações que despontam. Toda a linguagem utilizada é fortemente impregnada por uma sexualidade em evolução própria da época.
A história desenrola-se criando um ambiente de preocupação crescente que nos convence e arrasta. O realizador usa metáforas e sonhos para nos exprimir os pensamentos secretos dos personagens. A representação está bem defendida pelos atores escolhidos e pelas suas ações que nos transmitem as suas fraquezas e desesperos. Todo o filme está bem urdido e constitui um espetáculo agradável embora tenso e cheio de inquietação.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

31 de agosto de 2017

Opinião – “O Guarda-costas e o Assassino” de Patrick Hughes


Sinopse

O maior assassino profissional do mundo decidiu sair da sombra e testemunhar contra o seu antigo patrão no Tribunal Internacional de Justiça em Haia. No entanto, este não foi um patrão qualquer, mas sim um corrupto e mortífero ex-Presidente de um país de Leste, que tem ao seu dispor um enorme exército de mercenários capazes de tudo para impedir que a testemunha apareça no julgamento. Para se defender, este ex-assassino contrata o mais famoso guarda-costas do mundo, e juntos terão de pôr de lado as suas diferenças e cooperar para conseguirem chegar a tempo ao julgamento.

Opinião por Artur Neves

Eis aqui um verdadeiro filme de verão com aventura, ação, comédia e claro está; amor de uma forma muito especial, tanto da parte do “assassino” como do “guarda-costas”, este mais tímido e contido em todas as suas titubeantes declarações ou em manifestações de carinho com a sua colega, por quem nutre uma saudável competição dos tempos em que ambos pertenciam ao mesmo departamento. Todavia ela não o esqueceu e é por sua intervenção que ele tem o ensejo de redenção e readmissão na organização de que tinha sido expulso.
A ação desenrola-se através das cidades europeias na viagem que o assassino tem de fazer entre Londres e Haia, para estar presente como testemunha de acusação de Vladislav Dukhovic (Gary Oldman) o tirano déspota que pretende dominar o mundo começando pelo seu país. As cenas de ação são muito bem conseguidas e variadas, tanto de automóvel, como de barco, mota e até a pé pelas ruas estreitas de Amsterdão velha onde nada pára no mesmo lugar depois da sua passagem.
Durante todo este caminho aparecem as oportunidades para a comédia em diálogos bem conseguidos de filosofia barata e de conselhos de amor entre o amante experiente (Samuel L. Jackson) e o jovem apaixonado (Ryan Reynolds) que não sabe como lidar com os seus sentimentos, criando-se cenas bem caricatas entre duas pessoas que não sabiam estar tão ligados entre si em anteriores eventos das suas vidas.
O verdadeiro amor canalha e apaixonado é demonstrado na relação entre Kincaid (Samuel L. Jackson) e Sónia Kincaid (Salma Hayek) cubana quente e apaixonada à primeira vista pelos dotes lutadores de Kincaid que a seduz para a vida ao primeiro encontro num bar repleto de perigos e de álcool. As suas manifestações de amor, mesmo separados pelas respetivas prisões onde se encontram, não são obstáculo suficiente para suspiros inflamados e manifestações de amor eterno.
Toda esta multifacetada história desenvolve-se numa dinâmica estonteante que nos arrasta em tempo de férias para a fantasia e o abandono das preocupações do tempo de trabalho. A história está bem estruturada, impossível qb, sem tempos mortos, com animação e intriga suficientes para podermos apreciar a dupla ligação perpetrada pelo Joaquim de Almeida, agente da CIA e colaborante dos vilões. Bom filme, distração garantida, recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

23 de agosto de 2017

Opinião – “Índice Médio de Felicidade” de Joaquim Leitão

Sinopse

2012, Portugal entrou em colapso e Daniel, como milhares de Portugueses, perdeu o emprego e deixou de poder pagar a prestação da casa. A mulher foi-se embora para a aldeia natal e levou os dois filhos com ela. Os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes, Almodôvar foi preso quando, desesperado, procurava encontrar uma solução e Xavier está fechado em casa, profundamente deprimido porque o site que os dois criaram para as pessoas se entre ajudarem foi um absoluto fracasso. Mesmo assim Daniel não desiste de ter esperança…

Opinião por Artur Neves

Na sua essência o “Índice médio de Felicidade” é um conceito psicológico que pretende quantificar o grau de satisfação de cada individuo, consigo próprio e com a vida que leva, apreciando-o com nove parâmetros diferentes que vão variando em função da idade, formação, local de residência, estrato social e outras variáveis de estado, que não podem ser resumidas num número, como este filme nos apresenta, atribuído aleatoriamente por cada indivíduo, quase porque sim.
Todavia, deixando de parte esse “pormenor”, o filme baseia-se na história recente da crise monetária mundial e dos seus efeitos em Portugal, apresentada em forma de narração pelo protagonista da sua desdita, da infelicidade em ter de se separar da mulher e dos filhos, procurar desesperadamente emprego para tentar salvar a casa, da qual já deve algumas prestações e obstinadamente tentar seguir um plano que ele próprio já verificou ter falhado. Tudo á sua volta desaba mas ele segue a esperança vã de obtenção do sucesso á custa da continuação do seu plano estabelecido noutro contexto e noutro tempo.
No entanto a história é consistente, apresenta-nos personagens com quem nos poderemos cruzar na rua e inferir pela sua aparência o seu grau de disfunção social, mercê de uma direção de atores regrada e inteligente. Cada personagem está bem caracterizada e entregue a um ator que a trabalhou com competência. Porém a ideia geral da história é simples o que faz com que o filme se estenda para lá do razoável com cenas óbvias que funcionariam igualmente bem induzindo esse pensamento no espetador em vez de o mostrar, como para nos indicar que também o sabemos fazer.
O pedido de ajuda no site funciona assim como o switch de inovação, que baralha os dados tão porfiadamente estabelecidos até aqui e com alguma resistência surge a ideia da viagem para ajudar o próximo, uma entidade totalmente desconhecida, que funciona como motivo de abandono a todo o sofrimento vivido até então, como redenção para toda uma vida de falhanço e da “noite fez-se dia” e alegria, porque ajudar todos os que têm dificuldades é o nosso destino e a nossa missão nesta terra.
Bem… toda aquela euforia soa mais a falso do que a obstinada persecução de um esquema repetidamente falhado. A alegria estampada em todos os rostos, outrora fechados e amorfos, excede largamente toda a tristeza e desespero dos primeiros tempos e isso, surgido assim como um piscar de olhos “cheira-nos a esturro”, ou seja… os gajos passaram-se mesmo da marmita. No seu todo a história comove e diverte, embora me tenha perguntado várias vezes onde é que eles teriam carregado os smartphones, o tablet e o portátil ao longo de toda esta dramática história.

Classificação: 5 numa escala de 10

2 de agosto de 2017

Opinião – “Pedras Sombrias” de Eric D. Howell


Sinopse

Uma jovem e determinada enfermeira chega aos portões de um isolado castelo na Toscana, da década de 1950, para ajudar o herdeiro mudo que aí habita. A missão de Verena (Emilia Clarke, A Guerra dos Tronos, Exterminador: Genisys, Viver Depois de Ti) é trazer de volta ao mundo o silencioso menino Jakob. Mas, ao fazê-lo, vê-se cada vez mais envolvida nos segredos escondidos no castelo.

Opinião por Artur Neves

Normalmente os bons filmes começam por ter sido bons romances bem adaptados á linguagem cinematográfica. Ora o contrário também é verdadeiro, que é que se pode esperar de um romance de sala de espera de dentista, (romance Italiano: “La Voce della Pietra” escrito por Silvio Raffo) realizado por Eric Dennis Howell, cuja principal experiencia nesta área é a coordenação de duplos em diversos filmes e que agora decidiu lançar-se na realização.
A história baseia-se num convite a uma enfermeira especializada em casos de autismo, para se instalar numa velha mansão na Toscânia e iniciar o tratamento de um rapaz que se remete ao mais completo silencio após a morte de sua mãe. O convite é feito pelo pai, escultor de profissão que vive na casa com alguns fiéis criados. Vimos a saber depois que o filho se “comunica” com a mãe através das paredes da mansão e temos aqui a história toda.
A atris de serviço, Emilia Clarke (da qual já falei na crítica de “Viver depois de Ti”) não mudou nada ao que anteriormente lhe identifiquei; expressões faciais algo desconexas com a ação, maneirismos vários e desta feita a novidade de um arremedo de paixão fatal encenado no mais ridículo que se possa imaginar, sem razão, contexto ou sentido e apenas para encontrar um tema que se distinga do resumo anteriormente citado, para justificar esta pastelada história.
Plano após plano a mensagem é sempre a mesma, o miúdo silencioso a escutar às paredes, a enfermeira que o pretende tratar, o pai simulando preocupação num um ambiente gótico, sempre escuro para criar drama que não aparece, uma narrativa sempre constante, destinada a protelar o desfecho pífio que se vem a verificar, uns fantasmas ordeiros que nem disso merecem ser chamados porque não conseguem criar o ambiente místico anunciado através da narrativa. Lenta e custosamente a ação vai-se desenvolvendo sem novidade acrescida em cada novo plano, através dos mesmos diálogos entre personagens monodimensionais que se arrastam numa serie de clichés formais, sugerindo uma sobrenaturalidade material, esvaziada de conteúdo ou de espessura.
O final é mesmo a pior parte evocando a transmigração das almas entre mãe e filho como justificação para o seu mutismo eivado de misticismo, revela a sua natureza previsível, já indiciada durante toda a projeção, frustrante e maçuda de uma peça sentimentalona que nem consegue um desfecho coerente e digno desse nome. Um desastre.

Classificação: 2,5 numa escala de 10

29 de julho de 2017

Opinião – “Baby Driver – Alta Velocidade” de Edgar Wright


Sinopse

Baby, um jovem e talentoso condutor, especialista de fugas em assaltos (Ansel Elgort), confia na batida da sua banda sonora pessoal para ser o melhor.
Quando encontra a miúda dos seus sonhos (Lily James), Baby vê nela a oportunidade de deixar para trás a sua vida de crime e sair de forma airosa desse universo.
Mo entanto, ao ver-se coagido para trabalhar para um chefe do crime (Kevin Spacey) e quando um golpe mal sucedido ameaça a sua vida, o seu romance e a sua liberdade, ele terá de optar pela música certa…

Opinião por Artur Neves

Esta história é uma lufada de ar fresco aos argumentos tradicionais de gangs de assaltos a bancos e embora contendo todos os elementos de violência, dureza e crime do género apresenta-nos os factos sob o manto diáfano da juventude, ligeireza e esperança no futuro, do motorista de fuga dos assaltos, o tal “Baby” do título, interpretado por Ansel Elgort que consegue um desempenho simpático, presumindo que o hard work a que o papel obriga é conseguido pelos muitos duplos referidos no genérico do filme.
Outra nota de diferenciação da história é a caraterística deste “motorista” cometer as maiores proezas e viver constantemente de auriculares colocados nos ouvidos, numa clara referência ao emergente “personal áudio”, através de todos os elementos capazes de processar música em formato digital, todavia ele vai mais longe, considerando que compõe e arranja, peças musicais sugeridas pelos ruídos do ambiente que o cerca no seu dia-a-dia de corridas de carro em fuga pela cidade.
Toda a história é construída em torno do crime e da sua postura naïf de jovem em crescimento, cuidador do pai adotivo e apaixonado fulminantemente pela empregada do snake-bar que o encantou ao som de palavras livremente trauteadas durante um fortuito primeiro encontro. Toda a música ocupa um lugar significativo na história, nos assaltos e serve como pano de fundo redentor para uma atividade que cedo nos parece que não pode acabar bem.
A ação mostrada em todo o filme está bem estruturada, credível e realista, com cenas de condução em cidade perfeitamente excecionais, considerando que a realidade que o cinema nos permite visionar, é uma realidade aumentada que constitui precisamente o seu papel na nossa vida, servindo para nos emocionar, divertir e fazer pensar nas diferentes nuances que o argumento nos apresenta para inferirmos como seria se de facto aqueles eventos se verificassem.
Edgar Wright realizador e argumentista desta história, Inglês de nascimento já com provas dadas no meio e no género consegue transmitir-nos a emoção dos assaltos e a inocência do amor emergente, o calculismo do “patrão”, interpretado por um Kevin Spacey, pesado e autoritário e a loucura submissa dos desvalidos da vida que os praticam, a compaixão pelos fracos e a sempre necessária esperança no futuro e na vida que nos espera depois de ultrapassado o presente que nos desagrada.
Este filme tem qualidade, é sério e divertido em simultâneo, recomendo

Classificação: 8 numa escala de 10

28 de julho de 2017

Opinião – “Assalto ao Shopping” de Alain Desrochers


Sinopse

Tudo o que Eddie Deacon queria era um emprego calmo que não desse chatices. Qualquer emprego servia. Mas ele escolheu o lugar errado e o dia errado.
Um segurança desarmado que trabalha no turno da noite num centro comercial arrisca tudo para proteger uma jovem inocente de um gang perigoso disposto a tudo para a impedir de testemunhar contra o seu chefe sociopata.

Opinião por Artur Neves

Lembram-se do “Assalto ao Arranha-céus” de 1988 com Bruce Willis ainda com cabelo, embora com umas grandes entradas que indiciavam a grande “bola de bilhar” que constitui hoje a sua cabeça?... pois bem a história que atualmente nos é contada tem muitas semelhanças. A grande diferença reside na ingenuidade com que a primeira nos foi contada na época, a lisura escorreita de toda a aventura onde transpirava um espírito naïf de justiça óbvia e sem mácula que não levantava qualquer dúvida entre os “bons” e os “maus”, nem sobre os seus métodos.
Nesta história o ambiente é mais sórdido em que nos é mostrada um noite de horror e de medo num shopping guardado por seguranças contratados, pessoas normais, donde sobressai o “herói” que vai resolver toda a situação. Mostra-nos também como vale tudo, como com os conhecimentos certos é possível fazer bombas com os materiais correntes do quotidiano comum, recordando-nos a herança deixada pelas atividades terroristas e mostrando-nos com toda a vida é agora mais perigosa.
António Banderas é o herói de guerra, desempregado, perturbado pelas vicissitudes da vida mas que vai ser o obreiro do plano de defesa da jovem testemunha, não tão inocente assim, contra uma “cavalaria” de vilões que a querem matar, capitaneados pelo inefável chefe interpretado por “Ben Kingsley” num papel ao seu nível e que lhe assenta bem, entre o déspota louco e o “Joker” de Batman, sem qualquer piedade nem contemplações mesmo para os seus próprios acólitos, desde que não cumpram na perfeição as suas ordens.
Outra mensagem que transparece é a fragilidade da tecnologia atual, que apesar de estar em consecutiva evolução não se liberta das suas imperfeições de génese que permitem a sua fácil inoperacionalidade nas situações em que seria mais necessária, bem como a vulgaridade com que é utilizada em brinquedos e dispositivos menores para nos servirem de forma adaptada.
Em toda a história perpassa um clima de ação, bem desenvolvido e trabalhado por Alain Desrochers, nascido e criado em França mas revelado nesta profissão nos USA em filmes de ação e outros, com carreira na televisão e que nos mostra de maneira clara como o terror pode ter diferentes construções e diferentes agentes desde que bem guiados por uma história de ficção embora consistente. O filme constitui portanto um espetáculo de diversão e de emoção que se vê com agrado.

Classificação: 5 numa escala de 10

21 de julho de 2017

Opinião – “Olha que Duas” de Jonathan Levine


Sinopse

Depois do namorado a deixar em vésperas de umas férias exóticas, a impetuosa e sonhadora Emily Middleton (Amy Schumer) convence a sua conservadora mãe, linda (Goldie Hawn) a viajar com ela para o paraíso.
Polos opostos, Emily e Linda percebem que trabalhar suas diferenças como mãe e filha – de forma imprevisível e hilariante – é a única maneira de escapar à selvagem aventura em que caíram.
Amy Schumer e Goldie Hawn protagonizam a hilariante comédia “Olha que Duas”, que também conta com Ike Barinholtz (“Neighbours”), Wanda Sykes (“Bad Moms”) e Joan Cusack (“Working Girl”).

Opinião por Artur Neves

Jonathan Levine deve ter apostado em ser engraçado a toda a força e como tal apresenta-nos esta história, no seguimento de outras do mesmo estilo, “Sangue Quente”, “A Ultima Noitada” e “Á Deriva” embora, claro, com argumentos diferentes, que quanto a mim têm desacreditado o estilo de comédia que tanta falta faz ao cinema e a outras áreas de entretenimento considerando ser o “tempero”, a “sobremesa” que nos permite desanuviar as complicações da vida… e se ela é complicada!...
Goldie Hawn tem muito boas interpretações de comédia na sua já longa carreira, em histórias de ficção bem estruturadas, “A Morte Fica-vos tão Bem” em 1992 e “O Clube das Divorciadas” de 1996, para citar somente dois exemplos, mas não é o facto da sua comprovada experiência nesse tema que faz que um argumento de fluidez forçada se comporte como uma comédia. Por outro lado, quando se utiliza um sequestro de turistas num potencial paraíso da américa latina, o riso daí resultante não depende somente da parvoíce demente dos seus perpetradores, do irmão e filho das raptadas, nem na inépcia das autoridades locais. A inspiração para o riso tem de surgir de referências muito mais profundas e inteligentes que transformem aquele potencial drama, numa coisa ligeira que nos divirta.
De Amy Schumer apenas refiro que a linguagem vernácula nem sempre assenta bem em todos os rostos para o que é preciso mais do que bochechas descaídas e expressão de jovem púbere em transição, figura para a qual o seu corpo não contribui. Os raptores feiosos, não são por serem feios e ineptos que fazem rir, devia ser por não conseguirem os seus intentos apesar de terem estruturado bem o golpe. Mas não, é tudo muito pobre.
Tudo o resto compõe as características anteriormente descritas de uma história mal-amanhada, filmada demasiado em planos escuros para o estilo e dinâmica que se pretende imprimir à ação de caça, rapto, fuga, confrontação com os captores e com um epílogo que não merece tempo suficiente para ser digerido.

Classificação: 3,5 numa escala de 10